Encarando a realidade da educação e produtividade no Brasil

18/07/2018

Por Arthur Lavieri - Diretor - Presidente

Há alguns dias foi divulgado o relatório da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que traz os principais indicadores (ajustados para 2017) que correlacionam o nível educacional de uma força de trabalho e a sua produtividade comparada aos Estados Unidos. Triste, mas não surpreendente, o resultado coloca o Brasil entre as 3 piores nações do estudo e atrás de outros países da América do Sul como Argentina, Chile Colômbia.  Em linhas gerais, o trabalhador Brasileiro é 5x menos produtivo que um americano e 7x menos produtivo que um Norueguês.  Trabalhadores Chineses já são 50% mais produtivos que os Brasileiros. A China lidera o ranking de crescimento da produtividade no estudo iniciado em 1980 e almeja ultrapassar os Estados Unidos em 20 anos.

Para facilitar entendimento, colei o gráfico principal do estudo aqui abaixo:



Além dos perversos efeitos que essa desvantagem traz às empresas e ao país, é necessário deixar claro que o trabalhador perde ainda mais em sua renda. A forma mais simples de entender isso é pensar que se 5 Brasileiros são necessários para produzir o mesmo que 1 Americano, a somatória dos salários e benefícios auferidos por estes 5 Brasileiros será igual ou menor do que 1 único Americano.

O Brasil gasta muito e de forma errada. O objetivo do meu texto não é comentar algo que tem sido debatido e lamentado pela sociedade há anos e sim tentar contribuir com ideias e ações que possam ajudar a mitigar ou corrigir o problema do ponto de vista empresarial.  No nosso país, as empresas assumem o papel de desenvolvimento e suporte básico que muitas vezes deveria ser conduzido pelo estado que cobra impostos para tal.  Desta forma, empresas que buscam melhorar a sua performance no mercado, atrair e reter as melhores pessoas, criar um ambiente de dinamismo e inovação precisam decidir entre o conformismo, oportunismo ou protagonismo.

Explico:

1)      "conformismo" implica em se trabalhar com a situação atual, sem processos ou ações para melhoria. Nessa categoria encontramos empresas que não inovam e nem oferecem melhores produtos / serviços aos seus clientes. São as empresas que mais sofrem no mercado e a situação piora ainda mais em períodos de crise quando uma das únicas formas de manter a atividade é apelar para redução de preços e margens, entrando numa espiral de decadência da qual raramente saem;

2)    empresa oportunista sabe que precisa trazer mais conhecimento e melhores processos, mas não sabe ao certo como fazê-lo. Não tem estratégia, estrutura ou disciplina para criar os procedimentos que permitam oxigenar a sua força de trabalho. Dessa forma, adota práticas erráticas para atrair pessoas de mercado, em geral sem foco no aculturamento dos novos colaboradores ou planos de desenvolvimento e difusão do conhecimento. Nesse grupo de empresas estão aquelas que saem a contratar única e exclusivamente conhecimento técnico quando algum projeto ou necessidade urgente surge. Sem vínculo cultural ou tático, esses profissionais deixam a empresa em pouco tempo. Como resultado, instabilidade e empresas sem identidade.

3)     As protagonistas já compreenderam que as duas estratégias anteriores ferem profundamente o futuro da empresa. Além disso - e ao contrário do que muitos praticam - nos momentos de crise nota-se a necessidade ainda maior de uma boa base  (educada e treinada) em sua força de trabalho, uma vez que o investimento de tempo e recursos já vem sendo feito há tempos. Como protagonistas, não esperam acontecer. A empresa combina programas de treinamento interno e reciclagem devidamente alinhados com a estratégia. Ao mesmo tempo, investe tempo para selecionar e recrutar pessoas que tenham o perfil mais adequado à cultura de empresa, privilegiando atitude e conhecimentos de base em detrimento a especialidades ou estrelismos.  Essa combinação de processos é muito mais difícil de estabelecer e gerenciar, mas é a única que transforma a empresa.

A teoria faz sentido, mas a prática é o que realmente importa. Na Solaris nós optamos há muitos anos em protagonizar.  Nos últimos dois anos aplicamos 21.000 horas de treinamento e conectamos os treinamentos com provas práticas e teóricas além de input para avaliações de mérito. Importante notar que vários dos treinamentos foram refeitos para retomar conhecimentos e conceitos que - lamentavelmente - não foram apresentados de forma adequada aos profissionais em seu período de formação escolar e técnica. Em outras palavras, investimos tempo e recursos para fechar essas lacunas.

Estabelecemos um departamento próprio para instrução técnica em equipamentos (de forma a diminuir a dependência de fabricantes e permitir customização de treinamentos), criamos o "Universidade Solaris" com mais de 10 cursos técnicos preparados para atender nossos negócios, investimos em plataforma própria de EaD (ensino à distância) e retomamos visitas técnicas ao exterior para absorver novas tecnologias ou conhecer modernizações. Trabalhamos com equipamentos de segurança, produtividade e energia - reforçamos a área de Segurança do Trabalho para oferecer aos colaboradores e clientes treinamento e suporte local.  A base de tudo isso é uma política robusta de recrutamento, seleção e acompanhamento de desempenho.

Protagonizar é claramente mais difícil que as alternativas. Mas os resultados são encorajadores. A produtividade das áreas operacionais cresceu quase 40% no período. Os indicadores de qualidade no cliente melhoraram mais de 30%, todos os indicadores relacionados à qualidade, respeito ao meio-ambiente, saúde e segurança do trabalho melhoram trimestre a trimestre. O desperdício de tempo e material vem caindo e os resultados financeiros aumentando. Ganham acionistas, clientes e colaboradores.

Em resumo, assumir uma posição de protagonista nesse cenário é fundamental. Não adianta esperar por condições básicas melhores. Acionistas e investidores não querem e não precisam gastar tempo para entender que o sistema educacional Brasileiro é deficiente ou que o trabalhador Brasileiro é menos produtivo. Há anos eles comparam o desempenho das empresas em vários países e sabem disso. Eles querem que a empresa encontre formas de superar essas desvantagens e não usá-las como desculpas. Esse é o mesmo desejo de clientes e colaboradores. Mãos à obra.