A volta da geração de energia de emergência

23/02/2017

Por Arthur Lavieri - Diretor - Presidente

Com a crise econômica, o consumo geral de energia elétrica no Brasil caiu quase 1% em 2016. Não parece muito, mas isso significa quase 5.000 GWh ou a energia equivalente a quase 18.000.000 de residências por 1 mês. A indústria reduziu seu consumo em quase 3%. Há quem diga que esse é o “lado bom” da crise pois aumenta a segurança energética do Brasil (que já passou por várias crises de abastecimento de energia nos últimos anos), mas há muitos temas a pontuar:

1. Tristemente, o Brasil usa problemas como este para postergar investimentos e planejamento de longo prazo que poderia minimizar os impactos da próxima crise;

2. O consumo residencial Brasileiro AUMENTOU durante a crise;

3. A indústria já dá mostras de recuperação do consumo de energia desde meados de Novembro/2016. A retomada de consumo neste segmento é MUITO mais rápida do que nos segmentos comerciais e residenciais. Ou seja, a recuperação do nível de consumo geral pode se dar em menos de 1 ano

4. O consumo industrial é muito mais centralizado em certas áreas, obviamente. Isso aumenta o esforço de atendimento das redes de distribuição e sub-transmissão das cidades onde estão estas indústrias. Várias distribuidoras já tem declarado que grandes gargalos técnicos tem se ampliado em regiões de sua concessão, a exemplo de distribuidoras de São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Para citar algumas. Rápidas pesquisas nos sites da ANEEL, ONS e das próprias distribuidoras dão notícia destas fatos. Outra forma de verificar isso é através da análise dos indicadores de qualidade de fornecimento DEC e FEC – duração e frequências dos cortes, respectivamente. Praticamente piores em todas as regiões Brasileiras desde 2014

5. A expansão da oferta de energia é INSUFICIENTE para garantir a retomada do consumo nos moldes de 2012-2013. No ano passado, quase 8.7GW de novas usinas comissionadas (muitas delas com anos de atraso) apresentam algumas peculiaridades preocupantes:

a. Gargalos no sistema de transmissão – especialmente eólicas no Nordeste

b. Óbvia dependência de fatores climáticos (sol, chuva e vento) que fazem das energias limpas uma modalidade ótima para a matriz, mas desde que complementar

c. Geração térmica (cara) ainda operando em fortes níveis no Brasil. Algumas usinas tidas como emergenciais operaram por meses seguidos e suas paradas de manutenção serão longas e caras

6. Postergação de leilões de contratação de energia reserva

7. O Sudeste começa o ano com apenas 36% de seus reservatórios cheios. O Nordeste, menos de 20%.

8. Estudo do EPE que aponta para quase 9GW de déficit de potência reserva para 2017-2018. Isso deve piorar.

9. Novos aumentos de custos de energia elétrica (adicionais às “correções” de mais de 50% aplicadas pelo governo nos últimos meses) ainda na esteira das catástrofes que o governo anterior operou no setor elétrico de forma demagógica e irresponsável.

Em outras palavras, o Brasil parece não ter apreendido muito com os apagões e as crises. Os custos continuam a aumentar, a tarifação e taxação sobre as contas de energia continua exagerada (4 maior carga tributária de energia do mundo), a oferta de energia nova não acompanha a projeção de recuperação de economia e os gargalos físicos / ausência de transmissão continuarão a representar riscos aos fornecedores.

Neste contexto todo, nossos principais e mais preocupados clientes já começam a se movimentar para preparar seus projetos de paradas emergenciais com antecedência. Temos recebido um número crescente de consultas para elaboração de projetos mais completos para conexões de energia emergencial ou temporária a Diesel, além dos estudos para corte de custos em horário de pico. A maioria destes clientes já se preocupa com as informações de fornecimento no nível de sua conexão à rede. Imaginem o que acontecerá quando parte ou todos os itens listados aqui acima começarem – de novo – a maturar.....é o Brasil de volta ao ano 2001, só que agora boa parte das boas empresas prestadoras de serviços desapareceu do mercado por conta da crise.  Há chances de que a consequências sejam ainda piores.

Arthur Lavieri é engenheiro eletricista e atualmente preside a Solaris Equipamentos e Serviços Ltda, uma das maiores empresas especializadas em aluguel de máquinas especiais e serviços agregados.